Acidentes incubados na regulação do setor elétrico: estudo de determinantes organizacionais e de suas consequências sociais

  • Alessandro José Nunes Silva CEREST Piracicaba
  • Ildeberto Muniz de Almeida
  • Rodolfo Andrade de Gouveia Vilela
  • Sandra Lorena Beltran Hurtado
  • Mara Alice Conti Takahashi
Palavras-chave: Acidentes de trabalho; Análise de acidente; Prevenção de acidentes; Terceirização; Distribuição de energia elétrica

Resumo

Desde sua privatização, mudanças organizacionais no setor elétrico brasileiro impactam a saúde e segurança dos trabalhadores. Este estudo é motivado por três objetivos: descrever (1) desfechos imediatos e tardios de um acidente de trabalho grave no setor elétrico; (2) aspectos técnicos e proximais do acidente e; 3) origens organizacionais e gerenciais incubadas na história do sistema. Neste estudo de caso realizou-se análise documental, entrevistas, grupo focal, e observação direta. Os acidentes têm efeitos diretos e indiretos aos trabalhadores e familiares: dificuldades na reintegração familiar, no meio social e nas relações de trabalho. O estudo de caso permite elaborar hipóteses que sugerem avaliações para verificar se os achados estão se repetindo no setor. O caso revela que as decisões gerenciais no nível local se associam a aspectos da regulação pública que tem como objetivos: (a) a redução do tempo de interrupção de energia, e (b) a redução do preço das tarifas. Estes dois parâmetros têm implicação na acidentalidade do setor, introduzindo fatores organizacionais patogênicos no sistema, seja na introdução de pressão de tempo para a realização de tarefas perigosas, seja na realização de cortes em investimentos, na manutenção, na contratação de pessoal especialmente via terceirização e precarização da força de trabalho, no treinamento e na segurança. A análise em profundidade de acidentes pode contribuir para elucidar como determinantes organizacionais introduzem distúrbios no sistema facilitando os acidentes. Transformar e intervir sobre esses determinantes pode contribuir para tornar o trabalho mais seguro e sustentável.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Métricas

Carregando Métricas ...

Biografia do Autor

Alessandro José Nunes Silva, CEREST Piracicaba

Possui graduação em Educação Física pela Universidade Federal de São Carlos (2004). Especialista em Ergonomia (FATEP - 2013) e Qualidade de Vida e Atividade Física (UNICAMP- 2006). Mestrado na UNESP/FMB - Botucatu em Saúde Coletiva (2015). Atualmente é CLT da Prefeitura Municipal de Piracicaba - CEREST Piracicaba. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Saúde Trabalhador, atuando principalmente no seguinte tema: Saúde do Trabalhador, Acidentes de Trabalho e Ergonomia.

Referências

AMALBERTI, R. Gestão da segurança: teorias e práticas sobre as decisões e soluções de compromisso necessárias. Botucatu: FMB -UNESP; 2016.

ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica. Nota Técnica nº 265/2010-SRE. Metodologia de cálculo de custos operacionais. Brasília: ANEEL; 2010.

ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica. Nota Técnica nº 60/2018-SGT. Quarta revisão tarifária periódica. Brasília: ANEEL; 2018.

ANTUNES, R. A corrosão do trabalho e a precarização estrutural. Revista Margem Esquerda. v. 18, p. 42-47, 2012.

ANTUNES, R.; DRUCK, G. A terceirização como regra? Rev. TST, v. 79, n. 4, 2013.

BALL, S.J. Performatividade, privatização e o pós-Estado do Bem-Estar. Educ. soc. v. 25, n. 89, p. 1105-1126, 2004.

BINDER, M. C. P.; MONTEAU, M.; ALMEIDA, I. M., Árvore de Causas. Método de Investigação de Acidentes do Trabalho. São Paulo: Publisher Brasil Editora, 1995.

BRASIL. Ministério de Trabalho e Previdência Social. Portaria nº 508, de 29 de abril de 2016. Altera a Norma Regulamentadora NR - 10 - Segurança em instalações e serviços em eletricidade. Brasília, Diário Oficial da União, 2 mai. 2016.

CASTRO V.C., OLIVEIRA M.A. Corta circuito religador temporizador. 2001. Disponível em: http://www.aneel.gov.br/biblioteca/Citenel2001/trabalhos/34.pdf Acesso em: 29 out. 2019.

CASTRO, M.G.L. Quando as luzes se apagam... a gestão coletiva dos riscos na manutenção em rede energizada. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016.

DiEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Terceirização e morte no trabalho: um olhar sobre o setor elétrico brasileiro. Estudos e pesquisas. São Paulo: DiEESE; 2010.

DiEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Nota técnica nº 134. As tarifas de energia elétrica no Brasil: inventário do 3º ciclo de revisão tarifária e os efeitos sobre o setor. São Paulo: DiEESE; 2014.

DiEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Nota técnica nº 172. Terceirização e precarização das condições de trabalho. Condições de trabalho e remuneração em atividades tipicamente terceirizadas e contratantes. São Paulo: DiEESE; 2017.

DRUCK, M.; FRANCO, T.; BORGES, A. A perda da razão social do trabalho: terceirização e precarização. Campinas: Boitempo Editorial; 2007.

DRUCK, G. Trabalho, precarização e resistências: novos e velhos desafios? Caderno CRH, v. 24, n. spe 1, p. 37-57, 2011.

DRUCK, G. A terceirização na saúde pública: formas diversas de precarização do trabalho. Trab. educ. saúde (online). v.14, n.1. p.15-43, 2016.

FRANCO, T.; DRUCK, G.; SELIGMANN-SILVA, E. New labor relations, worker’s mental exhaustion, and mental disorders in precarious work. Rev. Bras. Saúde Ocup., v. 35, n. 122, p. 229-248, 2010.

KREIN, J.D. Tendências recentes nas relações de trabalho no Brasil. In: BALTAR, P.E.A.; KREIN, J.D.; SALAS, C. Organizadores. Economia e trabalho: Brasil e México. 7. 1 ed. São Paulo: CESIT, UNICAMP, IE-Instituto de Economia; 2009. p. 199-226.
GUERIN

HALE, A.R. et al. Modeling accidents for prioritizing prevention. Reliab. Eng. Syst. Safety. v. 92, n. 12, p. 701-1715, 2007.

HOLLNAGEL, E. Barriers and accident prevention. Aldershor: Ashgate, 2004.

HOLLNAGEL, E. Risk + barriers = safety? Safety Sci, n. 46, p. 221-229, 2008.

LE COZE, J-C. 1984–2014. Normal Accidents. Was Charles Perrow right for the wrong reasons? JCCM. v. 23, n. 4, p. 275-286, 2015.

LIMA, M. E. A. Trabalho e saúde mental no contexto contemporâneo de trabalho:
possibilidades e limites de ação. In: ALVES, G.; VIZZACARO-AMARAL, A. L.; M. D. P.
(Org.) Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e da saúde do trabalhador no século XXI. São Paulo: LTr, 2011 p.161-172.

LLORY, M. Acidentes industriais: o custo do silencio. Rio de Janeiro: Multimais;1999

LLORY, M.; MONTMAYEUL, R. O acidente e a organização. Belo Horizonte: Fabrefactum, 2014.

MAIA, B.; MACHADO, C. Dublê de eletricista. Um documentário sobre a terceirização no setor elétrico brasileiro [documentário]. Brasil: Sindieletro MG; 2015. 20 min.

MANDARINI, M.B.; ALVES, A.M.; STICCA, M.G. Terceirização e impactos para a saúde e trabalho: uma revisão sistemática da literatura. rPOT. v. 16, n. 2, p. 143-152, 2016.

MENDES, J.M.R. O verso e o anverso de uma história: o acidente e a morte no trabalho. Porto Alegre: EDIPUCRS; 2003.

MILCH, V.; LAUMANN, K. Interorganizational complexity and organizational accident risk: a literature review. Safety sci. v. 82, p. 9-17, 2016.

NOVAES, J.R.; SILVA, A.J.N. Eletricitários [documentário]. Brasil: Prodprevenir; 2016. 21 min.

PAIM, J. A reforma sanitária e os modelos assistenciais. In: ROUQUAYROL, M.; ALMEIDA-FILHO, N. Organizadores. Epidemiologia e Serviços de Saúde. Rio de Janeiro: Medsi; 1999. p. 473-487.

PERROW, C. Normal accident. Living with high risk technologies. Princenton: Princenton University Press, 1999

POUPART, J. et al. A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. 3 ed. Petrópolis: Vozes; 2012.


REASON, J. Managing the risks of organizational accidents. Aldershot: Ashgate, 1997.

ROSA, Á.D. Agências reguladoras e estado no Brasil: reformas e reestruturação neoliberal nos anos 90. 2008. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília, 2008.

GOMES DA SILVA, L.G.G. Os acidentes fatais entre os trabalhadores contratados e subcontratados do setor elétrico brasileiro. Estudos de trabalho. v. 6, n.12, 2013.

SILVA, A.J.N. Análise organizacional de acidentes de trabalho no setor de distribuição de energia elétrica. 2015. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) - Faculdade de Medicina, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Botucatu, 2015.

SILVA, A.J.N. et al. Acidentes de trabalho e os religadores automáticos no setor elétrico: para além das causas imediatas. Cad. Saúde Pública. v. 34, n. 5, 2018:e00007517.

TAKAHASHI, M.A.B.C.; CERVENY, G.C. Impacto Social dos acidentes de trabalho no município de Piracicaba: intervenção e busca compartilhada pela integralidade em saúde. In: ASENSI F, PINHEIRO R, MUTIZ PA, organizadores. Bioética, Trabalho e Educação em Saúde. Rio de Janeiro: Multifoco; 2016. p. 67-77.

WEIDENBAUM, M. Outsourcing: Pros and cons. Business Horizons. v. 48, n.4 p. p. 311-315, 2005.
Publicado
2019-12-18
Como Citar
Silva, A. J. N., Muniz de Almeida, I., Andrade de Gouveia Vilela, R., Lorena Beltran Hurtado, S., & Conti Takahashi, M. A. (2019). Acidentes incubados na regulação do setor elétrico: estudo de determinantes organizacionais e de suas consequências sociais. Revista Jurídica Trabalho E Desenvolvimento Humano, 2(2). https://doi.org/10.33239/rtdh.v2i2.54